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Pesquisadora investiga mecanismos do enovelamento de proteínas com foco em sequências camaleônicas

Por Ciência Pioneira | Publicado em 10 de agosto de 2026 | Última atualização em 10 de agosto de 2026

Pesquisadora investiga mecanismos do enovelamento de proteínas com foco em sequências camaleônicas

Estudo utiliza as técnicas da física computacional para compreender como as proteínas se dobram

Entender como as proteínas — moléculas essenciais para praticamente todas as funções do corpo — adquirem sua forma tridimensional funcional é um dos grandes desafios da ciência moderna. Esse processo, conhecido como enovelamento, é fundamental para o bom funcionamento celular e para a prevenção de doenças.

Segundo a hipótese termodinâmica, uma sequência de aminoácidos tende sempre a se dobrar em uma mesma estrutura final, aquela que representa o estado de menor energia. Mas será que isso se aplica a todas as proteínas?

Algumas evidências sugerem que não. Existem sequências chamadas de camaleônicas, capazes de assumir formas diferentes dependendo do ambiente. Motivada por essa aparente exceção, a pesquisadora Ana Paula Povinelli, da Unesp de São José do Rio Preto, está desenvolvendo um estudo inédito que usa essas sequências como modelo para investigar os mecanismos do enovelamento de proteínas. A pesquisa foi selecionada no primeiro edital da Ciência Pioneira voltado ao apoio a projetos inovadores e de risco.

Nesta entrevista, Ana Paula fala sobre as ferramentas da física computacional, o papel das sequências camaleônicas e a importância de fomento à ciência básica.

1. O que é o enovelamento das proteínas que você irá estudar sob o prisma da física?

Primeiro precisamos conceituar o que é uma proteína: ela é um polímero composto por aminoácidos que formam uma ligação peptídica, só que essa estrutura não fica ‘esticada’. Esses aminoácidos têm cadeias laterais que interagem entre si e com o ambiente ao redor, como a água e outras moléculas, então essa estrutura vai se organizando até atingir uma estrutura contendo um estado de menor energia.

Quando a proteína atinge essa estrutura de menor energia, dizemos que ela está enovelada — ou seja, que assumiu sua forma tridimensional funcional. Todo esse caminho até chegar a essa forma final é chamado de enovelamento.

2. Por que um estudo como esse é relevante para o entendimento da vida?

O funcionamento de qualquer ser vivo depende das proteínas. São elas que participam da replicação celular, do transporte de oxigênio, da digestão… praticamente tudo. Mas, para que exerçam suas funções, precisam estar corretamente enoveladas.

Se uma mutação ou mudança no ambiente faz com que a proteína perca essa estrutura, ela pode perder também sua função. Isso pode levar ao surgimento de doenças. Em casos mais graves, o mau enovelamento pode formar fibras amiloides, associadas a doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. Por isso, entender esse processo é tão fundamental.

3. Você foi aprovada pela área ‘Física e Matemática da Biologia’. Portanto, lidera uma pesquisa localizada na fronteira do conhecimento. Como você utiliza os métodos da Física para entender o enovelamento das proteínas?

O enovelamento é difícil de observar diretamente, mas conseguimos simular esse processo por meio da dinâmica molecular — uma técnica de simulação computacional baseada nas leis de Newton. Com ela, conseguimos calcular a trajetória de cada átomo e entender como a proteína vai se dobrando ao longo do tempo.

Além disso, hoje contamos com ferramentas de inteligência artificial que ajudam a prever a estrutura final das proteínas. Esses algoritmos foram treinados com grandes bancos de dados e permitem antecipar qual será o formato de uma proteína, mesmo sem observação experimental.

É algo muito valioso — tanto para o desenvolvimento de novos fármacos quanto para entender melhor a evolução das proteínas.

4. E por que a sua proposta é considerada ousada para melhorar a compreensão da ciência sobre o enovelamento das proteínas?

Meu projeto foca em sequências camaleônicas, que são trechos curtos de aminoácidos capazes de adotar conformações diferentes — como hélice alfa ou fita beta — dependendo do contexto em que estão inseridas. Essa ambiguidade estrutural me chamou a atenção como um modelo poderoso para estudar o enovelamento.

A ideia é inserir essas sequências em uma proteína modelo (a GB1) e observar como isso afeta o processo de enovelamento. Como essas sequências já existem na natureza e estão catalogadas em bancos de dados, percebi que elas poderiam nos ajudar a entender por que, em certos ambientes, os mesmos aminoácidos formam estruturas diferentes.

Quando tive contato com esse material, pensei: por que não usar essa propriedade natural para estudar como o ambiente influencia o dobramento das proteínas? Essa pode ser uma chave para responder questões fundamentais sobre estrutura e função delas.

5. Por se tratar de um novo modelo para o estudo do enovelamento de proteínas, ainda não há resultados prévios. De que forma o nosso apoio pode ajudar a viabilizar uma pesquisa com esse grau de originalidade?

Acho que a ousadia está justamente em apostar em caminhos ainda pouco explorados, em hipóteses para as quais não temos muitos resultados prévios. O impacto que eu espero com este projeto é principalmente acadêmico, já que estamos falando de ciência básica — não aplicada. Meu objetivo é gerar conhecimento, contribuir para entender melhor esse tema que ainda tem muito a ser descoberto. Vejo que é um problema com grande potencial para novas descobertas, especialmente agora, com o avanço das ferramentas de inteligência artificial e das técnicas experimentais.

A maioria das agências de fomento não aposta em projetos como o nosso, porque não temos resultados preliminares — não foi estudado antes. A gente não está só incrementando algo que já existe, estamos propondo algo diferente, novo para ser explorado. E o apoio da Ciência Pioneira permite arriscar e buscar resultados que não sejam apenas incrementais, mas verdadeiramente novos.

Acompanhe as redes sociais da Ciência Pioneira para conhecer mais de cada projeto financiado pela iniciativa filantópica.