Aos 20 anos de idade, Gabriela Frajtag conquistou um lugar na lista de premiados no Concurso Internacional de Ensaios sobre Biologia Quântica promovido pelo Foundational Questions Institute (FQxI) e Paradox Science Institute com o apoio da Ciência Pioneira no Brasil. A competição buscava, no âmbito internacional, respostas originais à pergunta “A vida é quântica?” com a oferta de até RS 300 mil em prêmios.
Gabriela foi a única brasileira entre os destaques do concurso e venceu a categoria destinada a graduandos garantindo o prêmio de US$ 3 mil (R$ 16 mil) com um ensaio sobre a história e o futuro da Biologia Quântica. Recém-graduada em Ciência e Tecnologia pela Ilum Escola de Ciência, apaixonada por leitura, história e biografias da ciência, ela encontrou na proposta do concurso uma oportunidade de reunir esses interesses em uma contribuição que explora o panorama histórico do campo.
Em entrevista à Ciência Pioneira, Gabriela comenta sobre a sua relação com a Biologia Quântica, o processo de pesquisa para o artigo e a importância da divulgação científica para jovens brasileiros.
Gabriela, como a Biologia Quântica entrou na sua trajetória?
Minha trajetória foi sempre recheada de ciência e interesse em múltiplas matérias. Não à toa escolhi uma graduação interdisciplinar. Aprendi pela primeira vez sobre a biologia quântica em um livro, “A Vida no Limite” (Al-Khalili & McFadden) e estudando na Ilum Escola de Ciência, a interdisciplinaridade sempre esteve presente: tive uma palestra sobre biologia quântica com o Professor Nelson (que também é coordenador acadêmico na minha faculdade).
Em seguida, surgiu a incrível oportunidade de participar da Escola de Biologia Quântica da Ciência Pioneira em 2025 e, durante aquela semana, pude aprofundar na base teórica de física e biologia, além de ouvir palestrantes brasileiros e estrangeiros contando sobre suas pesquisas na área. Foi muito interessante!
Em agosto de 2025, a Escola de Biologia Quântica da Ciência Pioneira reuniu jovens em uma semana imersiva em Paraty para aulas, palestras, sessões de pôster e networking com o objetivo de fomentar a comunidade científica e inspirar novas carreiras na área. O que te impulsionou a participar e como você descreveria a experiência?

O que me impulsionou foi principalmente a curiosidade. A biologia quântica é um campo que ainda está se formando, é bem novo, e ter a oportunidade de fazer parte de um evento que é possivelmente um dos primeiros focados no assunto (talvez no Brasil, o primeiro) é uma honra imensa.
A experiência em Paraty foi muito especial porque não foi apenas assistir aula, havia também muitos momentos de interação, perguntas e troca de ideias e o legal disso é que tinham pessoas de várias áreas diferentes, o que só aumentava a possibilidade de troca.
O que mudou na sua perspectiva de carreira após a vivência em Paraty?
Antes da vivência em Paraty, eu já acreditava na importância de integrar diferentes áreas da ciência, mas durante o evento fiquei muito impressionada com a motivação da organização para garantir que a gente realmente leve o que aprendeu para as nossas próprias pesquisas. Saí do evento com ainda mais vontade de trabalhar de forma interdisciplinar e de explorar como a biologia quântica pode contribuir para minhas perguntas científicas no futuro.
Você conheceu o Concurso Internacional de Ensaios sobre Biologia Quântica através do grupo da Escola de Biologia Quântica. Qual foi o principal motor para a sua inscrição no Concurso?
O meu pensamento foi: eu não tenho ainda uma pesquisa própria em biologia quântica para escrever sobre no concurso, mas adoraria contar a história do campo. Isso porque eu amo ler, principalmente história e biografias da ciência. Então pensei que minha contribuição poderia ser justamente esse panorama histórico que construí no ensaio.
O seu artigo premiado aborda a história da Biologia Quântica, por que é necessário recontar e registrar a história da ciência?
A história da ciência nos ajuda a entender que o conhecimento não surge de forma linear e que tudo é resultado de contexto. Quando eu era mais nova, via televisão e pensava: “uau, isso é uma caixa mágica que me permite ver coisas que aconteceram no passado”.
Depois a ciência explicava essa “mágica”, com eletrônica e óptica. E eu pensava: “então a pessoa que criou isso deve ser genial de uma forma quase impossível”. Mas quando estudamos a história da ciência percebemos que ninguém cria nada completamente sozinho ou do zero.
A ciência é um esforço coletivo, construído ao longo do tempo. E entender isso torna a ciência mais humana e mais acessível para quem quer participar dela. Além disso, registrar a história é crucial para entendermos como certas ideias surgem, desaparecem e às vezes voltam décadas depois com novas evidências ou tecnologias. Isso ajuda a dar perspectiva sobre o presente da ciência e sobre os caminhos que ela pode tomar no futuro.
Como foi o seu processo de pesquisa para escrever o artigo? O que mais te impressionou nas suas descobertas?
O processo envolveu leitura de livros e artigos. Como eu já tinha lido um livro sobre biologia quântica, assistido palestras e ido na Escola, ficou em minha mente alguns nomes e descobertas que queria escrever sobre. Depois, o processo foi mais de tentar entender como certas ideias sobre efeitos quânticos em sistemas biológicos surgiram e como foram sendo reinterpretadas ao longo do tempo.
O que mais me impressionou foi perceber que várias ideias que hoje são mais aceitas já tinham sido sugeridas há tempos, mas na época faltavam ferramentas experimentais para testá-las. Hoje estamos começando a ter tecnologias que permitem investigar essas hipóteses de forma mais concreta.
Como é ser premiada em um Concurso Internacional, representando o Brasil no campo da Biologia Quântica?
Eu fiquei muito feliz, foi uma surpresa imensa e maravilhosa. É importante mostrar que estudantes e jovens pesquisadores brasileiros estão participando dessas discussões internacionais e que podemos sim conseguir destaque.
O Concurso Internacional também funciona como uma forma de divulgação científica acerca de diferentes temas que mudam a cada ano. Como você vê a divulgação científica e qual a relevância de comunicar ciência para jovens talentos no Brasil?

Se hoje sou uma cientista formada, foi por causa da divulgação científica. Ela é muitas vezes a porta de entrada para o mundo da ciência mais formal.
No meu caso, foram programas como Cosmos, do Carl Sagan e do Neil deGrasse Tyson, as horas que eu passava vendo vídeos de experimentos no YouTube, ou lendo livros de divulgação científica. Hoje eu tento fazer o meu papel também, falando sobre história da ciência nas redes sociais (@gabi_frajtag).
Admito que faz um tempo que não gravo vídeos, mas pretendo voltar em breve. Comunicar ciência é importante justamente porque pode despertar curiosidade em pessoas que talvez nunca tenham pensado em seguir esse caminho. E serve para aproximar o público dos cientistas, gerando entendimento e reconhecimento.
O que você falaria para jovens cientistas brasileiros que também estão se encantando pela ciência?
Continuem curiosos e não tenham medo de explorar diferentes áreas até encontrar aquilo que realmente amam. Quando descobrirem uma pergunta que te faz enlouquecer de curiosidade, persista! Às vezes a ciência pode ser difícil e cheia de desafios, mas é justamente essa curiosidade que nos faz continuar investigando e aprendendo.
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